Fantasmas: quem nunca viu um ou não acredita que eles existem nunca amou na vida. Apesar de ser agnóstica até o último fio do meu pentelho, com nenhum perdão da palavra (onde já se viu palavra pedir perdão); acredito que a religião pode confortar as misérias da alma da maioria das pessoas. Mas não busco conforto. Cadê a religião que exorciza os fantasmas? Esses fantasmas que criamos e não nos deixamos libertá-los?
Como toda Alice que se preze, vez por outra quando meus fantasmas batem à porta, eu costumo convidá-los para uma xícara de chá, com malucos de chapéus e um coelho que eu nunca corro atrás por preguiça. Uma coisa é certa: a sensação é de cair eternamente num buraco mais profundo que o abismo da minha alma. E isso é reconfortante, saber que não carrego o medo de precipícios. Deve ser mal de Alice.
Nem sempre matar o leão é a solução: quando se aprende a conviver com ele, o leão decide suicidar-se. A libertação quando é dessa forma, é livre, limpa e pacífica.
Zugzwang é um termo do xadrez, quando um dos enxadristas se vê encurralado por apenas duas alternativas: desistir ou jogar até o final – mesmo sabendo que irá perder. Jogar até o final é para pessoas determinadas, que estão dispostas a arrancar as próprias penas só para saber onde dói (como diria Madame Bovary). Mas nem sempre desistir é sinal de fraqueza. Ao contrário, há momentos que a desistência é o caminho dos sábios, daqueles que conhecem seus limites e horizontes. Nem sempre a gente precisa beber o último gole da garrafa ou tragar até o final. O whisky fica aguado se demorar muito e você pode se queimar apenas por querer fumar até o talo. É mais sadio aproveitar o gosto das coisas quando elas ainda surtem algum efeito em ti e são prazerosas. Depois disso é só perda de tempo, juízo e sono.
Exorcize seus fantasmas ou aprenda a conviver com eles.
02/05/2013

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