Carrego no peito um sertão. Um não, dois: o meu e o do mundo inteiro. Trago na alma a aridez do deserto, me oceano em vazio. Será esse o fardo das pessoas que pertencem a si mesmas? É a sentença de quem só se encontra no caos, de quem precisa da intempérie para viver e ser.
Tenho uma doença crônica diagnosticada como misantropia diuturna. É doença de gente que faz do abraço do outro, o refúgio. Mas quase nunca o outro consegue ser teu lar. Não tenho uma experiência vasta em relacionamentos, mas a hecatombe do meu eu sempre que aceito o desafio de adentrar em um, me fez professora na arte de (des)amar.
É preciso morrer em algum momento da vida, não para renascer das cinzas e todas essas baboseiras “fenixianas”. É necessário morrer em algum amor para reconhecer o próprio corpo, se descobrir.
Eu já entrei em coma, amputei alguns membros e quase perdi o útero. É a primeira vez que morro. Morri. Me sinto minha, ainda que não tenha espírito e seja só um corpo. Me experimento, me perscruto, me confundo e me invento. Nua, crua, porém minha.
Na maré do amor, a condição que me cabe é navegar entre a frivolidade e aleivosia do sentimento ordinário alheio. Mantenho o meu incólume, às custas de uma memória extenuada, de momentos violentados e garganta sufocada.
Mas acá ainda estou, algoz de mim mesma, sendo tua a cada dia que me torno minha, nesse movimento injusto bíblico de voltar para o lugar de onde viemos.
“Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede.” (Sartre, p. 63 in A idade da razão)
25/04/2013

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