A gente engravida várias vezes na vida.
Nem sempre é de um feto.
Abortar o amor é um exercício difícil pro corpo entender: é preciso temperança e confiar na lassidão do tempo. Nem sempre dá certo também. Não tem como fazer curetagem na alma, não há especialidade médica para o caos do coração e desordem da vida. Há amores que não merecem ser fecundados. Esses são feitos de gestações cíclicas inesgotáveis, que se reproduzem e morrem sempre que podem. Um zigoto de memória, tornando-se um embrião de carinho até que transforma-se num feto de dor. O ultrassom avisa: é enorme, não dá pra saber o sexo porque o amor desse tipo independe dessas superficialidades humanas, mas é gigantesco. Pode até ser mais de um. A possibilidade de um aborto bem sucedido diminui.
Só há um caminho: a gente tem que engessar o útero e arrancar à força se for preciso. Nem que seja pela garganta. E se ainda assim o amor insistir em ficar, a esperança é vê-lo natimorto.
IMAGEM: Gustav Klimt
23/04/2013
