11/08/2003, 21:34h
Acordei atordoada, no meio do escuro, ao som de bombinhas, apitos e o cheiro de pólvora. Os gritos eram irreconhecíveis. Correndo, fui para a frente do Corpo de Alunos formar. O coração pulsava na boca, a saliva me faltava, parecia até sonho - ou pesadelo. Era o tão temido e esperado acionamento: o acampamento começava.
Com uma mochila de quase 20 kg nas costas, fomos em fila indiana para os ônibus. Pensei nos palestinos acordados no meio da noite com bombas israelenses, tendo suas casas destruídas junto com sua família.
O sol nascia num laranja que cegava, passávamos por uma lagoa enorme e brilhante, uma portenta vista que não merecia ser desperdiçada marchando. Olhei para os 163 capacetes iguais andando, adicionado ao peso da mochila, um mosquetão de quase 5 kg, e vi passos rumo a hecatombe humana. Olhei a arma que pesava todos os quilos das impressões digitais contidas nela e desejei matar aquele momento da minha vida. Ninguém tinha nome, éramos todos números. Me senti tão longe de mim... do ser, de ser. Nunca fez tanto sentido eu não combinar com números e preferir as palavras. Gosto do som das letras, de combinar consoantes e vogais, de poder inventar coisas nunca ditas. Números são frios, inanimados... palavras são rijas.
Chegamos num espaço de terra, de vegetação seca, para começar a produzir as barracas nas quais dormiríamos. Pausa para dividir a ração - com esse nome que chamamos a comida dos animais que comemos ou mantemos em canis. Sustentar o corpo com metade de uma ração, do mesmo modo que sustentam a tropa com metade de raciocínio. Racionar a existência.
Durante um exercício de “caça ao tesouro” (ou às bruxas?), ousei me sentir cansada de viver. Tentava tirar proveito da experiência, mas é uma tarefa difícil quando não se vê sentido na ação. Começamos a cheirar fumaça, ela ia tomando conta do céu, quanta sede. A secura do verde em forma de incêndio. Fomos obrigados a dormir já no acampamento pronto ao invés dos nossos capengas pedaços de tecido. O dia ia se arrastando, e todas aquelas pessoas – principalmente eu- éramos indignas de termos tamanho pôr do sol. Lembro de ter olhado o céu, estrelado e de um anil interdito quase com vergonha de ser tão sedutor. Que vontade de ser passarinho e mergulhar nele.
Foi assim durante todos os dias e noites, o crepúsculo fazia da alvorada fonte de energia e paz. As noites eram mais difíceis. Eram os momentos dos gritos, dos risos supérfluos, da falta de capacidade do ser humano de se encontrar no outro.
Me lembro de segurar as lágrimas na boca: pior do que se sentir vendida, é se sentir comprada. Enquanto os oficiais a frente faziam o seu teatro facinoroso, com luzes no rosto e palavras humilhantes dirigidas a colegas de tropa, me senti acorrentada, me senti judia num campo de concentração. Morria lentamente na câmara de gás a cada risada. Uma barafunda de imbecis: era o que éramos. Pedi perdão pela humanidade estragar toda perfeição da natureza. Observava a vegetação queimada, de uma beleza fúnebre e negra. Que caminho lindo faziam as cinzas das árvores no ar, dançando com o vento.
“Brasil acima de tudo”, grita a tropa após apresentação. Que Brasil? Que tudo? Cospem essas palavras como se soubessem pelo que estariam lutando se uma guerra estourasse. Meu Brasil é o Amarildo que a PM deu fim. É a minha Maria que morreu da seca do sertão. É o meu João assassinado na chacina da candelária. A Ana que é violentada pelo marido. E eles estão abaixo do nada.
Acordei atordoada, no meio do escuro, ao som de bombinhas, apitos e o cheiro de pólvora. Os gritos eram irreconhecíveis. Correndo, fui para a frente do Corpo de Alunos formar. O coração pulsava na boca, a saliva me faltava, parecia até sonho - ou pesadelo. Era o tão temido e esperado acionamento: o acampamento começava.
Com uma mochila de quase 20 kg nas costas, fomos em fila indiana para os ônibus. Pensei nos palestinos acordados no meio da noite com bombas israelenses, tendo suas casas destruídas junto com sua família.
O sol nascia num laranja que cegava, passávamos por uma lagoa enorme e brilhante, uma portenta vista que não merecia ser desperdiçada marchando. Olhei para os 163 capacetes iguais andando, adicionado ao peso da mochila, um mosquetão de quase 5 kg, e vi passos rumo a hecatombe humana. Olhei a arma que pesava todos os quilos das impressões digitais contidas nela e desejei matar aquele momento da minha vida. Ninguém tinha nome, éramos todos números. Me senti tão longe de mim... do ser, de ser. Nunca fez tanto sentido eu não combinar com números e preferir as palavras. Gosto do som das letras, de combinar consoantes e vogais, de poder inventar coisas nunca ditas. Números são frios, inanimados... palavras são rijas.
Chegamos num espaço de terra, de vegetação seca, para começar a produzir as barracas nas quais dormiríamos. Pausa para dividir a ração - com esse nome que chamamos a comida dos animais que comemos ou mantemos em canis. Sustentar o corpo com metade de uma ração, do mesmo modo que sustentam a tropa com metade de raciocínio. Racionar a existência.
Durante um exercício de “caça ao tesouro” (ou às bruxas?), ousei me sentir cansada de viver. Tentava tirar proveito da experiência, mas é uma tarefa difícil quando não se vê sentido na ação. Começamos a cheirar fumaça, ela ia tomando conta do céu, quanta sede. A secura do verde em forma de incêndio. Fomos obrigados a dormir já no acampamento pronto ao invés dos nossos capengas pedaços de tecido. O dia ia se arrastando, e todas aquelas pessoas – principalmente eu- éramos indignas de termos tamanho pôr do sol. Lembro de ter olhado o céu, estrelado e de um anil interdito quase com vergonha de ser tão sedutor. Que vontade de ser passarinho e mergulhar nele.
Foi assim durante todos os dias e noites, o crepúsculo fazia da alvorada fonte de energia e paz. As noites eram mais difíceis. Eram os momentos dos gritos, dos risos supérfluos, da falta de capacidade do ser humano de se encontrar no outro.
Me lembro de segurar as lágrimas na boca: pior do que se sentir vendida, é se sentir comprada. Enquanto os oficiais a frente faziam o seu teatro facinoroso, com luzes no rosto e palavras humilhantes dirigidas a colegas de tropa, me senti acorrentada, me senti judia num campo de concentração. Morria lentamente na câmara de gás a cada risada. Uma barafunda de imbecis: era o que éramos. Pedi perdão pela humanidade estragar toda perfeição da natureza. Observava a vegetação queimada, de uma beleza fúnebre e negra. Que caminho lindo faziam as cinzas das árvores no ar, dançando com o vento.
Perdemos a dignidade com fome. Quem apenas tem fome de estômago, se perde. Eu tinha fome de mim. Que tipo de sistema é esse que te faz implorar por comida?
“Brasil acima de tudo”, grita a tropa após apresentação. Que Brasil? Que tudo? Cospem essas palavras como se soubessem pelo que estariam lutando se uma guerra estourasse. Meu Brasil é o Amarildo que a PM deu fim. É a minha Maria que morreu da seca do sertão. É o meu João assassinado na chacina da candelária. A Ana que é violentada pelo marido. E eles estão abaixo do nada.





