quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

SELVA(gens)!

Guernica, Picasso.

11/08/2003, 21:34h

Acordei atordoada, no meio do escuro, ao som de bombinhas, apitos e o cheiro de pólvora. Os gritos eram irreconhecíveis. Correndo, fui para a frente do Corpo de Alunos formar. O coração pulsava na boca, a saliva me faltava, parecia até sonho - ou pesadelo. Era o tão temido e esperado acionamento: o acampamento começava.

Com uma mochila de quase 20 kg nas costas, fomos em fila indiana para os ônibus.  Pensei nos palestinos acordados no meio da noite com bombas israelenses, tendo suas casas destruídas junto com sua família.

O sol nascia num laranja que cegava, passávamos por uma lagoa enorme e brilhante, uma portenta vista que não merecia ser desperdiçada marchando. Olhei para os 163 capacetes iguais andando, adicionado ao peso da mochila, um mosquetão de quase 5 kg, e vi passos rumo a hecatombe humana. Olhei a arma que pesava todos os quilos das impressões digitais contidas nela e desejei matar aquele momento da minha vida. Ninguém tinha nome, éramos todos números. Me senti tão longe de mim... do ser, de ser. Nunca fez tanto sentido eu não combinar com números e preferir as palavras. Gosto do som das letras, de combinar consoantes e vogais, de poder inventar coisas nunca ditas. Números são frios, inanimados... palavras são rijas.

Chegamos num espaço de terra, de vegetação seca, para começar a produzir as barracas nas quais dormiríamos. Pausa para dividir a ração - com esse nome que chamamos a comida dos animais que comemos ou mantemos em canis. Sustentar o corpo com metade de uma ração, do mesmo modo que sustentam a tropa com metade de raciocínio. Racionar a existência.

Durante um exercício de “caça ao tesouro” (ou às bruxas?), ousei me sentir cansada de viver. Tentava tirar proveito da experiência, mas é uma tarefa difícil quando não se vê sentido na ação. Começamos a cheirar fumaça, ela ia tomando conta do céu, quanta sede. A secura do verde em forma de incêndio. Fomos obrigados a dormir já no acampamento pronto ao invés dos nossos capengas pedaços de tecido.  O dia ia se arrastando, e todas aquelas pessoas – principalmente eu- éramos indignas de termos tamanho pôr do sol. Lembro de ter olhado o céu, estrelado e de um anil interdito quase com vergonha de ser tão sedutor. Que vontade de ser passarinho e mergulhar nele.

Foi assim durante todos os dias e noites, o crepúsculo fazia da alvorada fonte de energia e paz. As noites eram mais difíceis. Eram os momentos dos gritos, dos risos supérfluos, da falta de capacidade do ser humano de se encontrar no outro.

Me lembro de segurar as lágrimas na boca: pior do que se sentir vendida, é se sentir comprada. Enquanto os oficiais a frente faziam o seu teatro facinoroso, com luzes no rosto e palavras humilhantes dirigidas a colegas de tropa, me senti acorrentada, me senti judia num campo de concentração. Morria lentamente na câmara de gás a cada risada. Uma barafunda de imbecis: era o que éramos. Pedi perdão pela humanidade estragar toda perfeição da natureza.  Observava a vegetação queimada, de uma beleza fúnebre e negra. Que caminho lindo faziam as cinzas das árvores no ar, dançando com o vento.

Perdemos a dignidade com fome. Quem apenas tem fome de estômago, se perde. Eu tinha fome de mim. Que tipo de sistema é esse que te faz implorar por comida?


“Brasil acima de tudo”, grita a tropa após apresentação. Que Brasil? Que tudo? Cospem essas palavras como se soubessem pelo que estariam lutando se uma guerra estourasse. Meu Brasil é o Amarildo que a PM deu fim. É a minha Maria que morreu da seca do sertão. É o meu João assassinado na chacina da candelária. A Ana que é violentada pelo marido. E eles estão abaixo do nada.

Museu camuflado

O soldado bebe, CHAGALL.


04/08/13, às 23:43h, num quartel.

Aos poucos volto à a mim e me reconheço.

 Véspera do exercício de campanha. Pego uma marmiteira amassada. Abro. Há talheres.
 Ela é gelada e cinza.
 Me questiono quantas pessoas já tocaram nela, qual a história por trás dos seus amassados, que DNA ela já carregou.
 ELA deixa de ser apenas uma marmiteira e passa a ser um museu.
 Olho pra ela e lembro de meu avô. Que sentimento ele carregou (ou carregou ele) ao comer esperando uma bomba atingir o seu navio a qualquer momento na 2 Guerra Mundial?
 Que fome é essa que engole um estampido seco de um disparo ao seu redor?
 Lembro da aula de tiro. O som ensurdecedor de ter o poder de ser deus. Meu coração dispara a cada explosão de pólvora.
As pessoas miram num círculo branco. Eu engulo em seco e só consigo enxergar o Amarildo, o homem que teve sua furadeira confundida com uma arma, o rosto do elefante alvo da espingarda gaugio 12.
 O elefante me olha. Eu sinto remorso. Sinto culpa. Culpa de ser eu. Culpa de ser.
 Mergulho na minha mochila. Suja e pesada. Vejo vida no seu verde musgo. Embaixo dela está escrito "121". Quantos números terão passado por ela? O meu é o 120.
 Me sinto acompanhada. Minha marmiteira e mochila se tornam várias pessoas. Me sinto curiosa e começo a imaginar a fisionomia de todos que foram responsáveis por elas.
 Me pergunto se só eu penso nessas coisas.
 Todos reclamam do peso da mochila. Mas vidas pesam, carregamos a nossa nela.

Ao 121 e 123, espero que saibam do sentimento infindo de ter algo importante consigo: a história de outras pessoas e a tua própria.

SELVA!  


O peixe que morreu de amor

No oculto mar profundo
Havia um peixe solitário
Tinha o espírito moribundo
E no amor, um adversário
.
Quando alguém se apaixonava
pensava “pobre coitado”,
o amor pra quem amava
tornava o ser amargurado
.
era como  fome desvairada
que nunca sacia nem cala
volvia a grandeza do mar num aquário
e a vida sem preceituário.
.
Num dia especial de virtude
O peixe conheceu uma baleia
Embasbacado com tamanha angelitude,
Ele teve uma grande ideia
 .
Pediu-a em casamento,
Tolo peixe apaixonado
não passava de seu alimento
mais um amante abobado
.
Convidou a baleia para jantar
E na primeira oportunidade foi abocanhado
Não teve tempo nem de falar
Sobre seu amor inadequado
.
Em todo o oceano
Só se falava na morte do peixe
A notícia do ano
Era que ele havia entrado para o feixe
.
Das pessoas que por amor morrem
Dançam na rua fazem greve de fome
Que das tragédias se aprazem
E tem na loucura o sobrenome
.
No enterro do desgraçado
Até a baleia apareceu
Que com estômago alimentado
Chorava pelo amado que faleceu
.
Amaldiçoando a cadeia alimentar
Lá se foi a baleia sozinha
Levada infeliz pela correnteza do mar
Difamou o amor e tudo o que ele detinha
.
Na imensidão do mar
Morreu de fome e de sede,
Resolveu ao peixe se juntar
E ter o corpo junto ao dele.
 .
No fundo do mar reside a lápide que diz: “Túmulo resguardado por Netuno e embalado por Apolo. Dorme aqui Eros”.

06/05/2013

Zugzwang

Abéllan Julia


Fantasmas: quem nunca viu um ou não acredita que  eles existem nunca amou na vida. Apesar de ser agnóstica até o último fio do meu pentelho, com nenhum perdão da palavra (onde já se viu palavra pedir perdão); acredito que a religião pode confortar as misérias da alma da maioria das pessoas. Mas não busco conforto. Cadê a religião que exorciza os fantasmas? Esses fantasmas que criamos e não nos deixamos libertá-los?
Como toda Alice que se preze, vez por outra quando meus fantasmas batem à porta, eu costumo convidá-los para uma xícara de chá, com malucos de chapéus e um coelho que eu nunca corro atrás por preguiça. Uma coisa é certa: a sensação é de cair eternamente num buraco mais profundo que o abismo da minha alma. E isso é reconfortante, saber que não carrego o medo de precipícios. Deve ser mal de Alice.
Nem sempre matar o leão é a solução: quando se aprende a conviver com ele, o leão decide suicidar-se. A libertação quando é dessa forma, é livre, limpa e pacífica.
Zugzwang é um termo do xadrez, quando um dos enxadristas se vê encurralado por apenas duas alternativas: desistir ou jogar até o final – mesmo sabendo que irá perder. Jogar até o final é para pessoas determinadas, que estão dispostas a arrancar as próprias penas só para saber onde dói (como diria Madame Bovary). Mas nem sempre desistir é sinal de fraqueza. Ao contrário, há momentos que a desistência é o caminho dos sábios, daqueles que conhecem seus limites e horizontes. Nem sempre a gente precisa beber o último gole da garrafa ou tragar até o final. O whisky fica aguado se demorar muito e você pode se queimar apenas por querer fumar até o talo. É mais sadio aproveitar o gosto das coisas quando elas ainda surtem algum efeito em ti e são prazerosas. Depois disso é só perda de tempo, juízo e sono.
Exorcize seus fantasmas ou aprenda a conviver com eles.

02/05/2013

A vilania da memória

Persistência da memória, Salvador Dalí.










Carrego no peito um sertão. Um não, dois: o meu e o do mundo inteiro. Trago na alma a aridez do deserto, me oceano em vazio. Será esse o fardo das pessoas que pertencem a si mesmas? É a sentença de quem só se encontra no caos, de quem precisa da intempérie para viver e ser.
 Tenho uma doença crônica diagnosticada como misantropia diuturna. É doença de gente que faz do abraço do outro, o refúgio. Mas quase nunca o outro consegue ser teu lar. Não tenho uma experiência vasta em relacionamentos, mas a hecatombe do meu eu sempre que aceito o desafio de adentrar em um, me fez professora na arte de (des)amar.
É preciso morrer em algum momento da vida, não para renascer das cinzas e todas essas baboseiras “fenixianas”. É necessário morrer em algum amor para reconhecer o próprio corpo, se descobrir.
Eu já entrei em coma, amputei alguns membros e quase perdi o útero. É a primeira vez que morro. Morri. Me sinto minha, ainda que não tenha espírito e seja só um corpo. Me experimento, me perscruto, me confundo e me invento. Nua, crua, porém minha.
Na maré do amor, a condição que me cabe é navegar entre a frivolidade e aleivosia do sentimento ordinário alheio. Mantenho o meu incólume, às custas de uma memória extenuada, de momentos violentados e garganta sufocada.
Mas acá ainda estou, algoz de mim mesma, sendo tua a cada dia que me torno minha, nesse movimento injusto bíblico de voltar para o lugar de onde viemos.
“Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede.” (Sartre, p. 63 in A idade da razão)

25/04/2013

Quantas vezes você já engravidou?

A gente engravida várias vezes na vida.
Nem sempre é de um feto.
Abortar o amor é um exercício difícil pro corpo entender: é preciso temperança e confiar na lassidão do tempo. Nem sempre dá certo também. Não tem como fazer curetagem na alma, não há especialidade médica para o caos do coração e desordem da vida. Há amores que não merecem ser fecundados. Esses são feitos de gestações cíclicas inesgotáveis, que se reproduzem e morrem sempre que podem. Um zigoto de memória, tornando-se um embrião de carinho até que transforma-se num feto de dor. O ultrassom avisa: é enorme, não dá pra saber o sexo porque o amor desse tipo independe dessas superficialidades humanas, mas é gigantesco. Pode até ser mais de um. A possibilidade de um aborto bem sucedido diminui.
Só há um caminho: a gente tem que engessar o útero e arrancar à força se for preciso. Nem que seja pela garganta. E se ainda assim o amor insistir em ficar, a esperança é vê-lo natimorto.

IMAGEM: Gustav Klimt
23/04/2013