quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Museu camuflado

O soldado bebe, CHAGALL.


04/08/13, às 23:43h, num quartel.

Aos poucos volto à a mim e me reconheço.

 Véspera do exercício de campanha. Pego uma marmiteira amassada. Abro. Há talheres.
 Ela é gelada e cinza.
 Me questiono quantas pessoas já tocaram nela, qual a história por trás dos seus amassados, que DNA ela já carregou.
 ELA deixa de ser apenas uma marmiteira e passa a ser um museu.
 Olho pra ela e lembro de meu avô. Que sentimento ele carregou (ou carregou ele) ao comer esperando uma bomba atingir o seu navio a qualquer momento na 2 Guerra Mundial?
 Que fome é essa que engole um estampido seco de um disparo ao seu redor?
 Lembro da aula de tiro. O som ensurdecedor de ter o poder de ser deus. Meu coração dispara a cada explosão de pólvora.
As pessoas miram num círculo branco. Eu engulo em seco e só consigo enxergar o Amarildo, o homem que teve sua furadeira confundida com uma arma, o rosto do elefante alvo da espingarda gaugio 12.
 O elefante me olha. Eu sinto remorso. Sinto culpa. Culpa de ser eu. Culpa de ser.
 Mergulho na minha mochila. Suja e pesada. Vejo vida no seu verde musgo. Embaixo dela está escrito "121". Quantos números terão passado por ela? O meu é o 120.
 Me sinto acompanhada. Minha marmiteira e mochila se tornam várias pessoas. Me sinto curiosa e começo a imaginar a fisionomia de todos que foram responsáveis por elas.
 Me pergunto se só eu penso nessas coisas.
 Todos reclamam do peso da mochila. Mas vidas pesam, carregamos a nossa nela.

Ao 121 e 123, espero que saibam do sentimento infindo de ter algo importante consigo: a história de outras pessoas e a tua própria.

SELVA!  


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